CAJURUANAS
Ernane Reis Gonçalves
ERNANE REIS GONÇALVES
Email: ernanereisg@yahoo.com.br
 
BARATA

Gosto muito de animais. Tive um cachorro e gosto de cães. Não confio muito nos gatos e acho magnífico um urubu, no alto, longe, a se perder de vista, no azul sem fim. A cobra eu evito por um medo atávico e tenho um respeito nato ao cavalo, para mim o mais nobre dos animais. Admiro o boi de carro, pela sua filosófica lentidão.

Medo? Tenho. Tenho medo só de baratas.

Você ri?

Quando eu era menino, havia em minha casa, em Carmo do Cajuru, um daqueles fogões enormes, de lenha, embutido na parede, com grandes trincas onde se escondiam inúmeras baratas. Certa vez acordei lá no meu quarto, bem distante da cozinha, com algo dentro da minha boca. É! Era uma barata. Cuspi a coisa e vomitei em seguida, ficando noites sem dormir. Daí nasceu a aversão às baratas.

O nojo do inseto veio quando, um dia, na missa das sete da manhã, não sei vindo de onde, uma barata enfiou-me pelas calças adentro. Imagine você! A princípio senti apenas que algo me espetava perto do joelho direito. Sacudi a perna e a coisa subiu. Senti que me entrava pela cueca e saí como louco até à garagem da casa paroquial, arrancando literalmente calças e cueca. A barata correu lépida e eu, arrepiado e inerme, vi-a entrar entre os pedaços de tijolos. Saí num átimo e fui curtir meu vômito, na rua.

Certa feita, depois de um filme, Dorinha, minha irmã e eu, ao acender a luz da cozinha, vimos baratas correndo por todos os lados. Com um pouco de exagero eu diria que eram tantas que parecia mover-se a parede, massa marron-escura. De sapato, de chinelo, caímos-lhes em cima. E eram plocs e mais estalos e o nojo a revirar-me o estômago. Ainda vimos uma última subindo na pia, no exato momento em que eu estava abaixado bem perto dela. Dorinha deu-lhe com o sapato, espatifando-a em milhares de partículas moles e frias. Como sei que eram frias? Ora, eu estava abaixado e toda aquela coiseira espirrou-me no rosto.

Peguei repulsa por baratas.

Na década de setenta, homem feito, diretor do Colégio Demétrio Coelho, estava eu numa festinha de aniversário. Meu aniversário.

O garrafão da batida de limão, desses cobertos de vime, corria de mesa em mesa. Na terceira dose, os elogios eram fartos, à batida e a quem a fizera. Eu usava, na época um bigodinho invocado, bem saliente. Na minha quarta dose, as antenas da barata encostaram-se no meu bidoginho e eu quase a engoli.

Eu não vomitei, mas senti um arrepio e um mal-estar terríveis. Todavia, a aluna Dorinha do Zé Duarte, casada, grávida, que viu a baratona morta na minha taça transparente, passou mal, de pensar que também havia bebido batida de limão, recheada daquele monstro.

Fiquei, por um imenso lapso de tempo, com medo de baratas. Medo que acabei perdendo.
Depois eu conto, como perdi o medo de baratas.
 
A VELA

Coloquei uma vela num pires, para não queimar o móvel. Para se colar uma vela a qualquer superfície, temos de acendê-la, derretendo-a no calor. Enquanto a cera que pinga derretida, está quente, você tem condição de colar o pé da vela no pires. Mas, quente, ela não se segura. Só se firma no pires, quando a cera esfria. Se a vela se soltar e cair, por qualquer motivo, você tem de acendê-la de novo, deixar pingar e colocar a vela ali, enquanto está quente. Segurar até esfriar e só aí ficará colado.

Assim é a paixão. A paixão queima. Mas não segura. Assim é o amor. O amor fixa, porque é menos quente que a paixão, sabe esperar, não judia.

É preciso transformar a paixão em amor. Para se derreter, esfriar, segurar. E estar preparado para, a toda necessidade, acender de novo, para derreter, esfriar, segurar. E iluminar a vida, consumindo-se na chama que brilha.

Homem e mulher são uma vela. O homem é o pavio, a mulher, a cera. O pavio queima-se e só alumia embebido pela cera.A cera só alimenta o fogo se envolver o pavio.

Sozinho, o pavio apenas se queimaria, inútil, gerando fumaça, sem alumiar. Sozinho o pavio é apenas um barbante, que nem fica em pé. Como um homem sem a força de uma mulher.

Sozinha a cera apenas se derreteria, inútil, informe. Juntos, cera e pavio, consomem-se, por igual, iluminando o derredor. Morrem, ao final, ficando o restinho: um pouco cera, disforme, um pouco pavio, disforme. Mas cumpriram a missão. Iluminaram.

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