Em fevereiro desse ano, falei no site sobre um tema importante e desconhecido por grande parte da população que seria apresentado na novela das oito, escrita por Glória Peres. Se antes a esquizofrenia era uma palavra impronunciável ou inaudível por 90% da população, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), hoje, muitos familiares são gratos a autora da novela por sua brilhante iniciativa e coragem de abordar esse tema no horário nobre da televisão brasileira.
Outro dado digno de nota pela OMS é que houve um aumento significativo de adolescentes e jovens com sintomas de esquizofrenia, já que também tem aumentado drasticamente o número de jovens dependentes de maconha ou outras drogas psicóticas. As estatísticas mostram que se o adolescente tiver uma predisposição genética para a doença, cresce em 50% a chance de desenvolvê-la se ele for usuário de drogas.
Por trás dessa doença existe um problema maior que afeta grande parte da sociedade: o preconceito. Existe o estigma de que a pessoa que adoece de esquizofrenia se torna incapaz de trabalhar, estudar, namorar, casar... Isso tudo não passa de puro preconceito. De acordo com o Dr. Leonardo Palmeira, que escreveu o livro: Entendendo a esquizofrenia – como a família pode ajudar no tratamento? “a pessoa que sofre dessa doença não perde suas qualidades, sua identidade, seu caráter, seus princípios. Ela adoece como em qualquer outra doença. Seu sofrimento cresce quando ela encontra obstáculos que são puro preconceito, como a dificuldade de conseguir um trabalho, por exemplo. Se a pessoa está em tratamento, está em boas condições de saúde, tem aptidão para aquela função, demonstra competência, porque não conseguir o emprego? Tenho um paciente que prestou um concurso público, foi quinto colocado geral e hoje trabalha normalmente e é muito capaz naquilo que faz. O próprio filme Mente Brilhante mostra isso. John Nash recuperou-se e voltou a lecionar. O filme Shine conta a história real de um músico que, após adoecer e passar anos de sua vida internado em um hospital, casou-se e fez sucesso se apresentando em concertos de piano. É preciso acreditar no potencial da pessoa e não ofuscá-la pela própria doença.”
Além disso, deve-se enfatizar que a aliada mais importante do portador da esquizofrenia é indiscutivelmente a família. Sem o apoio, a compreensão e o esclarecimento da família sobre a doença, nenhum tratamento psiquiátrico e terapêutico terão resultados satisfatórios. A família é a peça chave na recuperação do paciente, “sendo que o número de recaídas e internações é significativamente menor entre pacientes que possuem uma família mais esclarecida e acolhedora.”
Infelizmente, por causa do preconceito que é advindo da falta de informação, acontece de ter em muitas famílias, pessoas que sofrem dessa doença há muito tempo e não buscam tratamento adequado. Por ser uma doença complexa, que às vezes demora até anos pra pessoa apresentar um quadro de surtos, pode acontecer de no início da doença o médico fazer erroneamente o diagnóstico como sendo uma depressão. A própria novela mostrou isso em um dos capítulos: o personagem passou por alguns médicos psiquiátricos e alguns deles disseram que o rapaz tinha era uma depressão, uma crise nervosa que iria passar.
Portanto, abrir espaço para temas desse tipo é fundamental. Principalmente, em uma sociedade como a nossa em que reina o preconceito, as superstições, as crendices. Existem muitos casos de o paciente estar num quadro de alucinações – como ouvir vozes, ver coisas estranhas como aparição de pessoas mortas, diabos, deuses, alienígenas e outros elementos sobrenaturais e também pode ter idéias religiosas e/ou políticas, proclamando-se salvadores da terra ou da raça humana – situações essas que são reais para pessoa surtada. Mas por desconhecimento da família, muitos procuram religiões que pregam a reencarnação, a possessão do demônio e outras crenças para ter uma explicação sobre o que está acontecendo com o paciente. Não é incomum vermos certos gurus ou líderes de seitas e filosofias espirituais convencerem a família do doente que ela acredite no absurdo de que o surtado está tendo na verdade é a possessão ou a visita de um espírito em seu corpo. Isso tudo só faz crescer ainda mais a carga de tensões gerada pela doença.
Acredito firmemente, que o conhecimento e a reflexão possam transformar os relacionamentos e ajudar na recuperação daqueles que sofrem com a doença. Por isso, não deixemos que esse assunto seja esquecido após o término da novela, mas que ele seja amplamente discutido, debatido em todos os setores de nossa sociedade. Se “conhecimento é poder", só podemos chegar a ele combatendo a ignorância, o preconceito e a alienação presentes em nosso meio.
- Quem deseja obter mais informações sobre a esquizofrenia: tratamento, sintomas e como a família pode ajudar, entre no blog do Dr. Leonardo Palmeira