A fera fez do recôndito esconderijo do porão o seu refúgio.
A flor preferiu se abrigar entre as verdes folhagens de um vaso que havia no sótão pra se alimentar da luz solar que vem de fora.
De tempos em tempos, a fera sai do seu sono profundo e resolve perscrutar o que acontece fora do seu habitat.
Todos se assustam quando ela aparece porque ela devora a flor, rosna ferozmente, mostra seus enormes e afiados dentes, vocifera barbaridades, mas depois como uma criança terna e obediente se acalma e volta a dormir seu sono profícuo.
Muitas vezes, para tranquilizá-la sedam-na, colocam-na em uma jaula e pensam que ela está sob controle.
Muitos querem entender porque ela age dessa forma...
Não entendem que as feras foram feitas para viverem o que a sua natureza lhes deu.
Ninguém pode mudar a natureza de uma fera, ninguém pode alterar o curso de um rio, ninguém pode explicar a razão de uma loucura, se tivesse explicação... Chamaria outra coisa.
A VENDEDORA DE BALAS
É fria noite de inverno em São Paulo. Ana Maria se abriga sob o teto frio e congelante da noite onde as águas tranquilas do céu azul marinho se apresentam pontilhadas de mil estrelas e uma prateada lua redonda.
O vento cortante no asfalto e o cheiro acre dos pneus não a intimidam. Em suas mãos duras podem-se ver as marcas de mordidas do frio e uma pequena mancha vermelha de sangue enregelado nas maçãs do seu rosto embranquecido.
A luz vermelha do semáforo diz pra ela se enfiar entre os carros e oferecer um pacotinho de balas: “Ô moço, compra de mim?”
Mas ninguém se atreve abrir os vidros do carro, principalmente numa noite fria como aquela… Seu corpo subnutrido está coberto por pobres agasalhos que mal podem esconder suas perninhas que parecem arames sustentados por um par de tênis esfarrapado e encardido.
Seus braços finos como um cabide se estendem em direção ao último carro que parece dar sinal a ela.
Ana corre em direção ao carro como uma flecha, na esperança de que o tempo até o sinal abrir seja maior que seu mau pressentimento.
Mas é tarde. O aviso de siga não pode esperar a sua chance de vender pelo menos um pacotinho daqueles que ela tinha em seu bolso.
Depois de infinitas horas entre os carros, debaixo daquela noite gélida, ela sai à procura de restos de comida que poderiam estar dentro dos sacos depositados na porta de algum restaurante naquelas imediações. Procura em vão. Se achasse algo, faria como um bicho esfomeado, iria engolir tudo de uma só vez, sem sentir o gosto putrificado daquilo que seria o seu alimento naquela noite.
Vagueia mais um pouco até cair em um canto frio da calçada; era o mesmo lugar que tinha dormido noites anteriores. Ali perto estão alguns pedaços de papelão e um velho jornal que se faz passar de coberta. Arrasta-os até o canto mais escuro da calçada e abre uma parte do jornal.
Entre letras e imagens gastas e quase apagadas, ela vê fotos de pessoas distintamente vestidas, com sorrisos plásticos nos lábios coloridos e dentre elas, crianças felizes em volta de uma farta mesa cheia de comidas e bebidas deliciosas.
Ana não pensa em nada naquele momento. A dor, a fome, o frio que sente no seu corpinho são maiores que a força de qualquer pensamento. Então, ela resolve enfiar suas duras mãozinhas rachadas dentro dos bolsos de seu agasalho. Lá dentro ela conta os pacotinhos de bala. Havia dois dias que não tinha vendido nenhum. Tenta abrir um para adoçar aquele buraco que estava remoendo dentro dela. Mas o cansaço é maior que a fome e a pobre menina de rua cai em um sono profundo.
Ela sonha que bem no centro das águas tranquilas do mar celeste está costurada uma lua redonda vestida toda de prata com mil estrelas pespontadas em sua volta e sobre ela se encontra um gigantesco prato de sopa quente para aquecer seu corpo esquálido e confortar sua alma. Para chegar até ele terá que nadar muito. Então, Ana, com um sorriso faminto e uma vontade obstinada, faz o primeiro movimento a fim de vencer o desafio que tem a sua frente. Mas apesar do seu imenso esforço, seu corpo pesado, retorcido pelo vento gelado começa a afundar no mar do céu sem fim.
Na manhãzinha do outro dia, um comerciante chega para abrir sua loja e vê embrulhado entre os jornais o corpo raquítico de uma menina em frente a sua porta. Tenta acordá-la, mas é inútil. Ana Maria tinha mergulhado pra sempre nas profundas águas do céu azul em uma noite fria de inverno.