TECENDO A VIDA COM PALAVRAS
ELKE PARREIRAS MAIA
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A PETECA DE VOVÓ MARIA


Minha avó Maria era uma mulher cheia de virtudes e muito prendada. Considero-a uma sábia. E também uma artista. Sábia, porque era uma pessoa de poucas palavras, tinha uma mansidão no olhar, nos gestos e nas palavras, palavras essas que pra mim valiam ouro e também porque vivia a sua religiosidade através de suas ações. O seu silêncio, a sua mansidão, as suas orações, a sua vitalidade e disposição pelo trabalho e pela vida são lembranças que me marcaram profundamente.

Mas outra lembrança forte que tenho de vovó era sua habilidade para fazer petecas. Eram verdadeiras obras de arte. Com a palha de milho e as penas de galinha elas eram feitas. Eu ficava encantada de ver que daquelas palhas brancas, selecionadas cuidadosamente, saia um brinquedo.

Acredito que ela aprendeu a fazer petecas quando ainda era criança; não sei se aprendeu com seus pais, tios, primos, irmãos ou com uma criança de sua idade.

Ela veio de um tempo em que as crianças não eram colocadas no colo, beijadas e afagadas, pois eram tantos filhos, tantas obrigações pra se fazer. Aliás, no seu tempo de criança, os adultos não tinham muita paciência em ensinar as coisas para os pequenos. Eles aprendiam com os adultos através do olhar. Era vendo o mais velho fazendo que o mais novo aprendia. Sem muitas perguntas, sem questionamentos. Cora Coralina, grande poeta, dizia a respeito da falta de atenção e importância dos mais velhos para com os mais novos: “Criança, no meu tempo de criança,/ não valia mesmo nada./ A gente grande da casa/ usava e abusava/ de pretensos direitos de educação./ Por dá-cá-aquela-palha,/ ralhos e beliscões./ Aquela gente antiga,/ passadiça, era assim: severa, ralhadeira./Não poupava as crianças...”

Como toda regra tem exceção, a minha avó gostava de dedicar tempo às crianças e a forma que ela encontrava de mostrar o seu afeto, de dar o seu carinho eram criando brinquedos pra gente, fazendo coisas gostosas na cozinha, nos presenteando com uma roupa nova feita por ela.

Essa arte de fazer brinquedos junto com os filhos e netos se perdeu com o tempo, aliás, com a falta de tempo dos pais, hoje em dia. Agora, tudo se compra, até mesmo um brinquedo. Mas só quem viveu essa época antiga, sabe como era gostoso o prazer de se construir um brinquedo. Dos sabugos de milho se faziam boizinhos, dos bambus e talos de mamonas se faziam espadas, canudinhos e outros inimagináveis brinquedos. Da natureza se recolhia não só os frutos, o alimento, mas também os brinquedos, as brincadeiras.

Imagino outra Maria, não a minha avó, mas Maria Santíssima, mãe de Jesus. Ponho-me a imaginar como ela deve ter feitos muitos brinquedos pra Jesus e se punha a brincar com ele. Existe algo mais terno, sublime e prazeroso do que ver a mãe e também o pai ensinando e aprendendo a arte de brincar junto com o filho? Esse tempo que os pais “perdem” com seu filho é ganho certo pra sua auto-estima e formação, além de se transformar em lembranças inesquecíveis para ambos. Ricas lembranças que vão virar estórias contadas para gerações posteriores.


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